Matéria especial para o site – Um cineasta tentando descobrir o Brasil

"Alguns caras passaram fome para criar cinema" – Bruno Graziano, cineasta

Texto: Bruna Meneguetti

O Set

 

Uma casa branca, um corredor apertado que desagua em um quintal decorado de maneira simples com plantas e móveis. Focaliza um pouco. O rapaz tem 27 anos, é de estatura mediana, cabelo ralo, pele morena, sorriso largo, barba por fazer. Abre a lente. Na parede oposta à entrada da Controle Remoto, as letras pretas na parede branca: “O set de filmagem é um campo de batalha”. Deixa o som do último disco de Siba invadir o ambiente. Silêncio. Microfone. Claquete!

"Trabalhava em uma locadora, cheguei a assistir 500 filmes em um único ano", conta o cineasta Bruno Graziano. “Era tão divertido quanto jogar bola”. O jovem que cresceu em meio à “geração locadora” não poderia definir de outra maneira a ida a esses estabelecimentos mágicos. Grande parte de sua trajetória se deve também ao curso de cinema na Universidade Metodista. Apesar de ter trancado a faculdade enquanto via o dinheiro voando da carteira, percebeu ali que a câmera seria sua estimada companheira de profissão.

Veja o primeiro documentário produzido por Bruno, em conjunto com Denise Godinho e Hugo Moura:

Mas produzir clipes musicais para bandas adolescentes não era exatamente o que estava no script de começo da carreira do aspirante a cineasta. Porém, com apenas 23 anos, ele faturou o prêmio de melhor clipe do VMB 2010 pela produção de “Recomeçar”, do então grupo de rock ascendente Restart. “Pareço rabujento, mas não gosto de fazer clipes. É uma relação muito comercial. Tive pressão de empresário e pouca liberdade. Por outro lado, ele me deu uma chance e dei sorte porque o Restart estourou, isso ajudou muito o meu sucesso inicial, além de ter sido uma escola para experimentar linguagens", relembra Bruno.

“Existe uma hora mágica no depoimento. Quando isso acontece, o tempo corre, os produtores travam o corpo. É aí que todos se olham, quase como um 'não fala na hora errada, não treme a câmera, ajusta o áudio, não caga que é agora!'"

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Com a chance, Graziano decidiu mudar de rumo e prometeu a si mesmo que faria um longa antes dos 24 anos. "Apenas" cinquenta entrevistados e 40 mil reais depois, chegou à estreia do filme feito em parceria com Denise Godinho e Hugo Moura.

"A Primeira Vez do Cinema Brasileiro” foi também a primeira vez de Graziano. Ele constata: “Eu achava que seria um mero interlocutor, mas descobri que o documentário tem um poder tão grande quanto a ficção”. O longa celebrou os 30 anos do lançamento de “Coisas Eróticas”, primeiro filme brasileiro com cenas de sexo explícito, que enfrentou a ditadura para arrecadar o que é até hoje uma das 20 maiores bilheterias nacionais de todos os tempos.

Com a missão inicial cumprida, a nova meta era realizar 5 longas antes dos 30 anos  objetivo que Bruno ainda persegue de perto aos 27. Assim, a ideia passou a ser “entrar em lugares que não se entra”, denotando uma característica que o aproxima de Eduardo Coutinho; de esmiuçar o Brasil que é negligenciado todos os dias pelos próprios brasileiros. Para Bruno, “O Acre Existe” é um grito de afirmação de 115 minutos, não apenas no título, mas também no próprio formato, comprido para os padrões de um documentário independente. 

O filme de Bruno Graziano com Milton Leal, Paulo Junior e Raoni Gruber está sendo veiculado na TV fechada e deve contar 100 mil espectadores nos próximos 5 anos. Quatro mil pessoas já o viram apenas por meio de cinema alternativo, como exibições em cineclubes, faculdades e praças públicas.

 

Com o mesmo orçamento do primeiro filme, o segundo tem um questionamento intrínseco sobre o país: “De onde nós somos? De onde viemos? A revolução temática dessa geração é entender que somos brasileiros e que o Brasil não é só um país 'bonitinho'", comenta Bruno.

Seu terceiro trabalho foi “Tem Gringo no Morro”, um documentário de média metragem gravado durante duas semanas na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, em parceria com Marjorie Niele. “A gente alugou uma casa por 13 dias”, diz Graziano. O filme de quase meia hora está disponível na internet e mostra a discrepância evidenciada pelos roteiros turísticos de estrangeiros endinheirados que visitam o morro para conhecer a realidade brasileira.

Veja na íntegra o média metragem "Tem gringo no morro". Produzido por Bruno e Marjorie Niele:

Apesar de tudo o que já vivenciou e de não ter lucrado nem o suficiente para cobrir o prejuízo com seus gastos no cinema, Graziano considera que cada filme é um filho. "Com a diferença de que um filho de verdade dá gasto para sempre, e o filme dá retorno", explica. E o processo de "parir" é realmente cansativo. Bruno relembra  com olhos orgulhosos e enquanto segura um copo que imita a lente objetiva de uma câmera na mão o que chama de “depressão pós-set”. Não à toa, pois ele rodou 16 cidades para realizar "O Acre Existe", voltou sem dinheiro algum, com o corpo desgastado e doente, como ele mesmo conta.

"Você chega a pensar que não quer filmar e fazer tudo aquilo nunca mais quando fica um mês de cama. Porém, logo depois deseja começar tudo de novo.”

Parte do desejo vem de alguns momentos do processo produtivo que o cineasta considera essenciais: “Existe uma hora mágica no depoimento. Quando isso acontece, o tempo corre, os produtores travam o corpo. É aí que todos se olham, quase como um 'não fala na hora errada, não treme a câmera, ajusta o áudio que é agora!'". Ele também lembra de quando estava no meio da Floresta Amazônica (gravando "O Acre Existe") com um entrevistado que os mandou correr de repente. "Nessa hora o que você faz? Corre? Espera? Nós corremos. Depois ele contou que havia uma árvore com 100 metros de altura de onde os cocos caem e 'racham a cuca'. Ou seja, poderíamos ter morrido", ri Bruno.

“Eu peço para todo mundo cantar, tipo um fetiche. O Coutinho lançou “As Canções”, e ele pensou em algo que é real: quando você canta, perde a defesa. Isso é o mais difícil no documentário”, acredita o diretor. 

Bruno recorda um personagem do Acre, o Raimundo; “Depois de uma hora de entrevista, não falava nada. Mas quando cantou, ficou marejado, era a música que ele compôs aos 20 anos e nunca mais tinha cantado. A música tinha definido a vida dele: triste”.

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O processo criativo de Bruno também é influenciado por uma máxima de Hemingway adaptada para o cinema: “Filme bêbado, edite sóbrio”, recita o cineasta, que divide o mundo entre os “malditos” e os “filhos da puta”. Para ele, muito filme que não provoca reação nenhuma na plateia e que não interessa a ninguém ganha R$ 5 milhões para ser feito.

"E nem estou falando dos filmes comerciais. O cinema também é uma indústria e precisa disso. O problema também não é ter dinheiro, estou falando é dos ‘filhos da puta’", comenta, citando também outro tipo de cineasta: o “maldito”.

Para essa categoria, ele dá o exemplo de Cláudio Assis, cineasta pernambucano e uma das poucas pessoas que faz o que quer. "Alguns caras passaram fome para criar cinema", informa Bruno, dizendo que, no geral, eles querem realizar do jeito que desejam, mesmo que seja malfeito. "Se mandam fazer diferente, o cara manda tomar naquele lugar. O Claudio ganhou um milhão e demorou três anos para fazer um filme porque quis. Esses são os 'malditos'". Mas Graziano também afirma que, para ele, há o meio termo, ou seja, conseguir que o dinheiro venha sem ser "filho da puta".

Entre suas principais influências, Bruno cita Glauber Rocha, Cláudio Assis, Beto Brant e Rogério Sganzerla. “Meu grande ídolo é o Walter Carvalho, fez mais de 80 filmes como diretor e diretor de fotografia e negou todos os convites para filmar lá fora”, afirma o cineasta, e acrescenta: "Ele merece uma lealdade de nós, realizadores mais jovens, não só por ter ficado no país, mas por ter impregnado em cada filme uma vontade fílmica acima de vaidade e vícios estéticos. É um cara que entende o cinema como espanto, como transformação humana em quem faz e em quem recebe". 

Veja o longa metragem "Tem gringo no morro", produzido por Bruno, Milton leal, Paulo Junior e Raoni Gruber:

Apesar de tantos grandes nomes citados, Graziano ainda identifica uma série de problemas no cinema nacional.

"Faltam salas de exibição. Esse é um gargalo. A gente tem quase que a metade das salas de exibição do México, e nossa população é muito maior. Os "Jogos Vorazes", por exemplo, foi o maior lançamento de um único filme na história do país, passou em 50% das salas. Isso tudo apesar do acordo entre a Ancine e os distribuidores que limitaria essa exibição a 35% das salas para um único título. Existe uma cota para veicular os brasileiros, mas o que passa é “De Pernas pro Ar 2”, que tem dinheiro para distribuição. Então, de 120 filmes, 100 ficam de fora. Não precisa ser um absurdo como na China, em que é o contrário: 80% dos filmes exibidos são de lá. Eles ficam até privados da cultura ocidental. Explicando melhor: no ano passado, das 10 séries mais vistas, metade era brasileira. A mais assistida foi "Vai Que Cola". Qualquer filme brasileiro, por pior que seja, fala mais sobre nós do que qualquer outro", ressalta Graziano, que acredita na procura pela produção brasileira por parte do público.

 

Por esses motivos, ele confia e quer continuar apenas produzindo longas em sua produtora independente. Nos últimos dois, filmes Bruno, juntamente com os outros produtores, gastaram R$ 40 mil. Sua próxima produção será "Largou as Botas e Morreu no Céu", na qual eles pretendem investir R$ 80 mil. O dinheiro vem de várias fontes, segundo Bruno: "Algumas empresas financiam, tento o catarse, peço o apoio de alguém da pós, de sócios. Mas o meu cinema sobrevive de publicidade. Faço freelas também e uso grande parte do dinheiro deles para os meus projetos. Mas já cheguei a estar bebendo champanhe no dia da estreia e não ter dinheiro para comer na manhã seguinte".

No entanto, apesar das dificuldades, Graziano garante: "se minha vida fosse um filme, seria uma tragicomédia. O deboche é a melhor terapia que existe". E quando questionado sobre o destino que ele busca, um sorriso desponta em seus lábios. O foco vai ampliando. Alguém esqueceu de acender as luzes. E Bruno finaliza: “Se for pra ser algo, quero ser um maldito bem sucedido, e não um filho da puta”, arremata enquanto toma mais um gole.

 

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"Se minha vida fosse um filme, seria uma tragicomédia. O deboche é a melhor terapia que existe", afirma Graziano. Talvez por isso umas das frases expostas em sua parede do estúdio é a da foto acima.

Confira clipes, trailers de metragens e outras produções de Bruno e equipe:

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