Matéria especial para o site – Se essa rua fosse música

Por: André Cáceres, Bruna Meneguetti, Érica Carnevalli, Gabriella Baliego, Joanna Cataldo e Octavio Milliet

Ser artista no Brasil não é fácil. Você precisa conhecer as pessoas certas, ter o visual "adequado" e uma qualidade que o destaque dos demais. Mas, na rua, não importa quem você seja, a única coisa que você precisa ter é amor. Amor pela música, pela arte, pelo público e o humano. 

“Muita gente pensa que as pessoas tocam na rua por falta de opção, mas, para mim, foi uma opção”, ressalta Bruno, que atrai todos os que passam do seu lado da calçada. Sua bateria é improvisada, montada a partir de objetos cotidianos, como baldes e caixas de papelão. Quem o vê tocando, mal imagina que ele é estudante de Engenharia Elétrica na FEI de São Bernardo. Uma profissão que destoa da sua música.  

Bruno não é o único artista de rua encontrado em São Paulo com certa dualidade de carreira e que deixa a frase "toco porque gosto" fluir da boca. Para eles, tocar na rua é um prazer ambíguo que se alterna entre a paixão pela música, a espontaneidade do público e leis variantes de acordo com o governo no poder.  

Ao entender a vida artística deles, conseguimos perceber que fazer música é muito mais do que se expressar; é a liberdade de cada músico. Através de acordes e ritmos, eles conhecem a cidade e, melhor ainda, a cidade têm o prazer de conhecê-los. 

Conhecendo as leis 

                                                                                                                                                                                                                 

Mais de um ano após a implantação da nova legislação que regulamenta a arte de rua em São Paulo, as calçadas da capital se transformaram em um verdadeiro palco. Após alguns anos de repressão por parte da prefeitura ─ que, em gestões anteriores, enquadrou os artistas na categoria de vendedores ambulantes, impedindo que eles se manifestassem e vendessem seus produtos ─, uma norma mais recente, aprovada em 2013 (lei municipal nº 15.776), deu mais espaço e deixou de exigir cadastro para que a arte na rua fosse exercida. No entanto, ela impôs algumas regras para essas atividades.

Para tornar mais fácil a consulta, essas regras foram compiladas em uma cartilha chamada “Arte na Rua”, feita pela Secretaria Municipal de Cultura em conjunto com o Movimento Artista de Rua (MAR) e lançada em março desse ano. Algumas das principais regras você pode conferir abaixo e neste link.

 

 

Mas não apenas de leis se faz o presente. Luan Frenk, violinista e vocalista da banda Tutti Amici, acredita que a luta dos artistas pelo espaço público de rua está atrelada também à história de São Paulo.

“Na própria trajetória política da cidade, vemos uma conquista gradual desses espaços, do direito à rua. No governo do Kassab, o cara muitas vezes era esculachado da rua. Na base da porrada, tiravam no tapa o sujeito que tocava ali. Nessa época fizemos uma manifestação na Paulista a favor dos artistas de rua”, informa Luan.

Ele diz que depois disso o Kassab “aliviou”. “A prefeitura do Haddad agora é outra relação, ele tá querendo liberação do artista, mas com regras”, explica o músico que tem suas origens ligadas ao teatro, assim como o grupo em que toca. A Tutti Amici é formada por Pedro Paes (saxofone, flauta transversal e violão), João Tognonato (acordeon), Breno Barros (contrabaixo) e Micael Guima (bateria e percussão). Juntos eles tocam músicas do leste europeu, explorando elementos circenses.

Para Micael Guima, que morou na Argentina em 2013, outra questão que deveria ser olhada com carinho em SP é a expressão artística dentro do metrô, que hoje é proibida. “Às vezes, [em Buenos Aires] tinha um músico muito louco tocando uma tuba e eu achava incrível fazer minha viagem de trem”, explica Micael, “no mundo, são poucos os metrôs em que se pode tocar dentro do vagão. Porém, nas estações, são vários. Aqui não pode no trem, no metrô e até arredores”.

De fato, o metrô tem uma norma própria, chamado de Regulamento de Transporte, Tráfego e Segurança da Companhia do Metropolitano de São Paulo (ou RTTS, para os íntimos). No RTTS não existe uma frase que proíba expressamente a manifestação artística. Porém, no Art. 13, encontramos particularidades que podem ser usadas para coibir essas atividades. São elas:

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Entrevista: A dupla da Paulista 

                                                                                                                                                                                                                 

 

Por que a rua?

                                                                                                                                                                                                                    

Seja por opção ou por falta dela, os artistas gostam de se apresentar na rua pela proximidade. Isso não é possível com o distanciamento de um palco ou pela venda de ingressos para uma performance. “Tem uma coisa de ser um ensaio aberto, estar em contato com o público e ganhando algo, só que espontaneamente. É um público diferente de quando você se apresenta em algum lugar, porque é um que está em movimento. E é isso que eu mais gosto no artista de rua”, afirma Luan.

Bruno Kioshi ressalta sua predileção pela rua para suas apresentações. “Acho que a principal missão é tentar levar música para as pessoas, para a rua. Transformar de alguma forma a cidade. O conceito de cidade é muito baseado na rotina: trabalho, trânsito, casa, faculdade, balada. São sempre lugares reservados e fechados. Lugares privados. Acho que a ideia do artista de rua é enriquecer o ambiente e trazer música para as pessoas que não têm acesso, que nunca viram uma pessoa tocando ao vivo, crianças que nunca viram um instrumentista”, acredita o inusitado baterista que toca nos baldes e já esteve entre os finalistas de um concurso internacional de músicos de rua.

A banda GHB, que faz covers de Beatles nas calçadas da Avenida Paulista, lembra que começou a tocar nas ruas justamente por causa desse convívio com as pessoas. Quando o grupo, formado por Daniel Shiguefugi, Lucas Gomes, Victor Amaral e Yuri Pompeu era apenas uma dupla, Daniel e Yuri decidiram levar os violões para brincar no natal de 2011.

“A gente foi por diversão mesmo, tocar de boa por lá, ver os enfeites, passear com o violão, só nós dois íamos andando, tocando e cantando pela Paulista. Mas no movimento da coisa as pessoas paravam, ouviam, cantavam junto, teve esse feedback positivo e nós gostamos, então fomos mais vezes em dezembro”, relembra Daniel.

Apesar de a maioria das bandas se concentrarem na região da Avenida Paulista, Bruno conta que existem outros lugares na cidade em que os artistas também podem atrair um grande público. Centro Velho, parques como Villa Lobos e Ibirapuera, Santo Amaro e Campo Limpo, são algumas das áreas que ele cita como opções alternativas.

 

Entrevista: Mario Machado

                                                                                                                                                                                                                 

                                                                                               (no vídeo, Mario toca Valsa Bachiana do Domingos Luiz Machado, música de seu tio)

 

Entre perrengues e alegrias

                                                                                                                                                                                                                 

Tudo tem seu lado ruim, e com a arte de rua isso não poderia ser diferente. De fato, os artistas têm algumas ressalvas às suas atividades, mas todos concordam que há muito o que se aproveitar quando se está disposto a passar pelas dificuldades de exibir sua música pelas calçadas da cidade. Daniel, da GHB, conta que algumas pessoas incomodam os instrumentistas. “Acontecem coisas um pouquinho desagradáveis às vezes, como alguém pedir uma música e a gente não saber, tem coisas mais chatas também, como um cara bêbado ficar pedindo pra tocar o violão”.

A dificuldade, para Pedro, da Tutti Amici, está em administrar sua vida dupla: ele é escritor e tradutor quando não está tocando na rua. “A única coisa que eu sinto é a disparidade de, para o público, ser músico e na minha vida pessoal trabalhar com texto, dicionário, academia. Eu acabo ficando muito afundado no meu mundo e de repente estou lá com uma galera, tendo que trabalhar coletivamente, estar na mesma sintonia. No começo, eu era muito resistente a isso, mas hoje em dia eu vejo como um aprendizado que contrapõe e é bom. Eu traduzo autores do século XIX, trabalho com os mortos. Dali a pouco, estou com gente viva. É muito legal”.

Para Luan, da Tutti Amici, o lado ruim de tocar na rua está justamente na falta de recompensa que ele sente. “Você gasta muito mais energia para ganhar uma grana que não é compatível ao evento que você se propôs a fazer”, afirma o violinista. Logo, ele é interrompido pelo percussionista Micael Guima, que discorda: “Pessoalmente, para mim, não tem lado ruim de tocar na rua. Ganha pouco? Tudo bem, não estou indo para ganhar. Eu posso ter preguiça de fazer muitas coisas, mas disso nunca me bate preguiça”, arremata animado  o músico, convencendo seu companheiro de banda. “É, pensando desse jeito, não tem lado ruim. Se você está disposto a vivenciar isso, você vai vivenciar isso de um jeito bom”, conclui Luan.

Daniel, da GHB, também não se deixa abalar pelos perrengues da rua, e acha que a parte boa faz a atividade valer a pena. “Tem também as coisas bonitas de se ver, crianças pulando, pessoas que param pra ver, ouvir, cantar, elogiar. Isso é até interessante porque a pessoa não é obrigada a nada disso, então, no mínimo, ela faz questão de dar um feedback positivo”.

Para o baterista Bruno Kioshi, as crianças também fazem a arte de rua se tornar mais especial ainda. “Muitas vezes aparecem crianças que começam a dançar e pular loucamente na frente da bateria. E eu gosto de interagir também. Sempre que eu posso e sempre que a criança não é muito tímida, eu empresto minhas baquetas para ela. Às vezes é o primeiro contato dela com um instrumento musical. Acho que a reação  das crianças é a mais legal”, conta o artista.

Para alcançar esse tipo de conexão com o público, Bruno diz que precisa, antes de tudo, estabelecer uma espécie de relação com as pessoas ao seu redor:

“Você tem que cativar as pessoas que estão ali. Como tudo que quer fazer bem feito, eu acho que um dos principais segredos é gostar daquilo que você está fazendo e fazer com sinceridade. Eu não estaria tocando na rua se não gostasse”.

Embora o amor pela música seja um fator importante para os artistas, não é só a diversão que os leva ao espaço público. Na opinião de Luan, tocar na rua é uma atividade que concilia interesses pessoais com necessidades financeiras. “Tem um lado de sobrevivência nisso. No final das contas, a gente está indo para a rua porque a gente gosta de tocar, mas também porque queremos ganhar dinheiro”, lembra o vocalista.

Segundo o “Guia das Profissões” (do site “Último Segundo”), no mercado formal, músicos em início de carreira costumam ganhar, em média, R$ 160 por hora trabalhada em um evento. Já em bares e casas de diversão, a hora trabalhada custa aproximadamente R$ 32,90.  A rua, por sua sua vez, pode eventualmente proporcionar valores mais altos do que os ambientes particulares. A chamada Dupla da Paulista, por exemplo, costuma arrecadar, por dia, entre R$ 200,00 e R$ 300,00. Em dias de sorte, os valores podem ultrapassar a média, como aconteceu durante uma apresentação em frente ao Conjunto Nacional, quando chegaram a faturar quase R$ 700,00.

Mas isso não significa que todos os dias sejam iguais. A inconstância ainda é a palavra-chave do trabalho na rua, como conta a dupla “Depende muito do mês. Há meses que são muito bons e há meses que não ganhamos quase nada”. É isso o que esses artistas têm em comum. Mesmo tocando estilos diferentes e até utilizando objetos inusitados como instrumentos, cada um deles tenta o que, muitas vezes, parece estar em uma realidade bem distante: viver da sua música. E sorte a nossa de poder encontrá-los de repente a caminho de algum lugar.

Entrevista: Picanha de Chernobill

                                                                                                                                                                                                                 

 

Entrevista: Grupo Ôncalo

                                                                                                                                                                                                                 

                                                                                                                                                                                                                 

Além das ruas: Les Chats-Potés

Além das ruas, alguns artistas decidiram investir nas redes para obter um público maior. É o caso da banda Les Chats-Potés, formada por André Santos e sua namorada francesa Lea Gonçalves. A dupla toca músicas ciganas e costumava tocar na boca do metrô Vila Madalena, onde conheceram outros artistas e volta e meia tocavam junto com um grupo maior, que os integrantes deram o título Teko Porã . Ambos tocam violino, e hoje em dia se mudaram para a França, onde continuam se apresentando nas ruas.

 

 

Os dois não fazem da música o único atrativo, também preparam um palco muito detalhado e artístico, assim como o vestuário, que muda a cada dia, sempre acompanhado por chapéus. A ideia de criar uma página no facebook veio de um fã, e hoje em dia a dupla já registrou um domínio próprio: www.leschatspotes.fr

                                                                                                                                                                                                                 

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