Matéria especial para o site – Noites no sereno

Por: André Cáceres, Bruna Meneguetti e Joanna Cataldo

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Foto: Fabio Tito e VF Fotografia

A noite chega e as ruas de São Paulo são tomadas por uma multidão sedenta por entretenimento. Advogados, empresários, médicos lotam os bares, restaurantes e baladas da capital. Enquanto isso, do lado de fora dos ambientes privados, mais de sete mil pessoas ─ segundo uma pesquisa realizada em 2015 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) ─ podem estar estendendo papelões na calçada e se cobrindo do frio do jeito que podem.

Mas, nas gélidas noites, centenas de pessoas deixam o coração aquecer e saem de suas casas a fim de dedicarem algumas horas a levar conforto e apoio emocional aos desabrigados. Outras pessoas fecham as portas. Não por ignorar o que se passa lá fora, mas para não deixar o vento entrar nos cômodos já lotados de gente.

Os que se deixam aquecer ganham um nome muito simples para a complexidade do que fazem; são voluntários. E parte deles recebeu um telefonema no meio de uma tarde de setembro, sendo surpreendidos com uma doação de 12 mil sanduíches. O grupo do projeto “Entrega por SP”, criado em 2013, fez questão de conseguir meios para distribuir ao menos 3 mil lanches e dar o resto a outras instituições.

Fundado pelo atual presidente, Lucas Caldeira Brant, o Entrega comemorou, em setembro, seu aniversário de dois anos. Na festa, estiveram presentes 200 voluntários, dos quais uma porcentagem não exata se reúne uma vez, no final de cada mês, na Praça Charles Miller, para distribuir roupas, cobertores, itens de higiene pessoal e bolachas para as pessoas em situação de rua.

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Julho de 2015 foi a maior ação realizada pelo Entrega por SP. Trezentas pessoas compareceram. Foto: Fabio Tito e VF Fotografia.

Começar a ajuda na noite não é difícil por causa dos horários ou cansaço. Segundo Guilherme Makoto, um dos 12 coordenadores da iniciativa, o maior empecilho são os conceitos já impregnados em nós. Ele, por exemplo, começou se interessando e comprando alguns itens para o kit. Porém, foi durante uma ação que seus conceitos começaram a mudar.

“Confesso que estava um pouco receoso por conta de meus preconceitos e desconfortável. Isso mesmo durante a pré-ação onde já era possível sentir a energia de todos, uma vibe muito boa! A noite foi uma quebra de paradigma, uma noite mágica e transformadora. Sempre digo o quanto esse projeto mudou a minha vida. Enfim, a ter mais gratidão”, afirma Guilherme, um dos coordenadores da iniciativa.

O preconceito e receio dos quais ele fala são facilmente encontrados em qualquer um. “Já ouvi falar que é por causa dessas ajudas que o pessoal não sai das ruas! Eu tinha um pensamento parecido, então sempre convido para participar e entender mais a fundo”, afirma Guilherme que sempre “entrega” suas experiências, “Mudei a forma de olhar o mundo, de me relacionar com ele, de me relacionar com as pessoas, de pensar, de agir”.

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Na foto, 720 kits que foram distribuídos em 30 de Junho deste ano. Foto: Fabio Tito e VF Fotografia

Porém, atuar à noite, segundo Guilherme, é compreender o histórico de cada indivíduo. “É preciso tratar o morador de rua como um cidadão em vez de tratá-lo como um indigente, marginal. Entender um pouco mais o lado humano, saber que cada um possui uma história, cada um tem um por que de estar ali”, explica. Segundo ele, muitos preferem ficar na rua mesmo tendo uma casa e família. Outros desejam sair daquela situação e, para isso, precisam de um “empurrãozinho”.

Claudio Bongiovanni, que viveu na rua por 11 meses e passou por muitas noites de sereno, compartilha da mesma opinião. Ele saiu dessa situação graças a dois projetos, o Clareou e a Ocas, que auxiliam pessoas em situação de alta vulnerabilidade social.

“Eu pesava 25kg e bebia duas garrafas pet de pinga todo dia. A noite, me esquentava com isso. Vivia completamente transtornado. Não sabia onde eu estava, andava a esmo. Um mês, dois meses sem tomar banho. Não estava nem aí.”, conta o ex-morador que superou sua condição através de ações voluntárias e, claro, do próprio esforço.

No entanto, ele afirma que não foi fácil deixar essa situação. “Eu não tinha intenção de sair. Nunca me passou pela cabeça. Para mim, aquilo ia ser o fim. Já era. Eu não tinha autoestima, não tinha nada. Minha família acabou. Eu não via nenhuma perspectiva de vida, de estar hoje falando com você de igual para igual. Pensava que um dia eu ia amanhecer morto, em coma alcoolico”. Para Cláudio, a pessoa precisa ter vontade para superar essas condições que a vida coloca. “Existe diversidade na rua. Alguns foram parar lá por causa de uma tragédia, uma coisa. Os que estão por opção é diferente, porque ele sabe onde tem banho, comida, cabeleleiro”, conta ele, que hoje trabalha vendendo as revistas do projeto Ocas para ganhar seu próprio sustento.

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Cláudio mostra com orgulho o exemplares da revista que vende. Foto: Acervo Ocas

O próprio Cláudio recebia vários tipos de ajuda antes de deixar as calçadas para dormir e começar a ocupá-las para vender. Por isso, ele acredita: “O cara que está na rua, só sai quando quer!”. Sua perspectiva contraria a ideia geral de que as pessoas não procuram uma melhor opção devido a ajuda que recebem. Nada disso, o sereno entra em um buraco muito mais fundo da alma, o problema é da pessoa consigo. Nada disso é fácil de se entender, pois existem diversos tipos de pessoas na rua. Para Guilherme, a pluralidade é confirmada: “A maioria recebe super-bem, conversa, e sempre nos ensina muito. Mas como são pessoas, há de todo tipo”, diz ele sobre a recepção daqueles que recebem as entregas noturnas.

Isso também se percebe no discurso de Adriana Paruszkiewicz, do instituto Lygia Jardim, que recebe pessoas que não têm lugar para passar a noite e tem 60 vagas masculinas e 40 femininas. “Alguns vêm para terem uma referência de moradia para procurar emprego, outros para terem uma estrutura para realizar tratamento de saúde, para se protegerem da chuva e do frio, para ter um endereço fixo, para ter um local onde tomar banho, comer e dormir, porque estão cumprindo condicional e não podem ficar na rua após as 22h, etc”, conta ela sobre as motivações pelas quais as pessoas buscam abrigo, que, no caso do Instituto, funciona das 16h às 8h.

Para Adriana,os albergues não servem apenas para proporcionar proteção e comida. Ela conta que, no projeto, os clientes, como são chamados, também são reintegrados na sociedade.

“Além de poder se alimentar, tomar banho e dormir, eles recebem atendimento social e participam de atividades socioeducativa”, explica Adriana, “se passam mal é acionado o serviço de emergência. Eles são assistidos em todas as suas necessidades físicas e sociais”.

Para conseguir realizar tudo isso, o instituto também fomenta um bazar para arrecadar fundos. “O bazar é realizado uma vez ao mês por um grupo de voluntários em outro endereço. São vendidas roupas, sapatos, acessórios, brinquedos e outros produtos diversos de segunda mão, que recebemos de doação”, conta Adriana.

Não são os cobertores que realmente aquecem as noites de São Paulo. Para a Meire Klen, projetos como esses realmente são as verdadeiras lareiras. Ela conta que chegou a participar de uma iniciativa que distribuía sopa, mas descobriu que isso não era o suficiente. Apesar de achar a distribuição de alimentos  importante, ela afirma que o que deseja é muito mais.

“Me interessei pelo Entrega por SP porque eles não vão lá apenas para saciar uma necessidade que é básica, mas momentânea. Daqui a pouco, a pessoa vai sentir fome de novo. O que eles precisam é de alguém que os escute, converse de igual para igual e ofereça oportunidades para quem deseja sair dessa situação”.

 

Como ajudar?

Quem quiser se tornar membro do instituto deve entrar em contato através do  telefone disponível abaixo. Adriana Paruszkiewicz fala um pouco mais sobre o que o candidato deve fazer: “Participar de uma visita monitorada e informar qual a sua disponibilidade e que tipo de ajuda pode oferecer, caso haja possibilidade de ser voluntário, deve assinar o termo de voluntariado e comparecer no dia e horário combinado”, explica.

Já para quem quiser auxiliar no Entrega por SP, deve atentar para as seguintes formas de ajudar: Através de doação de produtos, como escovas, garrafas de água, bolachas, absorventes, roupas, etc.; por meio de colaboração financeira; ao participar presencialmente de alguma ação noturna (apenas para maiores de idade); e vestindo as camisetas e agasalhos feitos pelo Entrega, assim o projeto é divulgado. Lembrando que divulgação em redes sociais também são sempre bem-vindas e muito pedidas.

Contatos:
Entrega por SP ─ entregaporsp@gmail.com
Instituto Lygia Jardim ─ (11) 3101-0659/ institutolygiajardim@terra.com.br

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